Conterrâneos Velhos de Guerra, uma homenagem a todos os trabalhadores
Simone Rocha de Toledo
Quem construiu a Tebas de sete portas? Nos livros estão os nomes dos reis.
Arrastaram eles os blocos de Pedra? Bertold Brecht
O documentário Conterrâneos Velhos de Guerra de Vladimir Carvalho começa com a frase de Bertold Brecht, na tentativa de desfazer a injustiça sobre o anonimato daqueles que trabalharam horas a finco para construção da “capital da esperança”, Brasília, que hoje é a grande vitrine das manifestações no Brasil e recebeu no último dia 03 de dezembro a 5ª Marcha da Classe Trabalhadora.
Olhando um pouco para o passado, através da perspectiva dos trabalhadores, podemos ver as aspirações dos milhares de trabalhadores “candangos pioneiros” (termo utilizado para identificar os primeiros habitantes de Brasília) que na busca de um eldorado foram submetidos as condições mais inesperadas possíveis. Suas lutas, suas reivindicações, suas frustrações
caracterizaram o ambiente daquela que seria a menina dos olhos do então presidente Juscelino Kubitschek.
Cinqüenta anos em cinco, JK assumiu a presidência da República em 1956 com 31 objetivos divididos em seis grandes grupos: energia, transporte, alimentação, indústria de base, educação e a construção de Brasília. Para a construção da capital federal o presidente JK criou através da lei 2874/1956 a NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital que foi responsável pela urbanização e infra-estrutura da cidade, especialmente nos primeiros dez anos que sucederam a inauguração de Brasília. Foi a Novacap quem elaborou, desenvolveu e administrou os primeiros planos habitacionais, educacionais e de saúde no Distrito Federal. O Plano urbanistio foi conduzido por Lúcio Costa e recebeu o nome de Plano Piloto e grande parte dos prédios foram projetados pelo já renomado arquiteto Oscar Niemeyer. Entre os de maior destaque estão a residência do Presidente (Palácio da Alvorada), o Edifício do Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal), a Catedral de Brasília, os prédios dos ministérios, a sede do governo (Palácio do Planalto) além de prédios residencias e comerciais.
No início da construção os boatos de facilidades, oportunidades, dinheiro em abundância na cidade percorreram todos os cantos do Brasil. Assim, ávidos por mudança, milhares de joãos, marias e josés, trabalhadores vindos de todas as partes principalmente do nordeste embarcavam para um sonho. Chegavam aos milhares, habitavam alojamentos lotados, sujos, insalubres, com alimentação precária. Não existiam para aqueles trabalhadores condições mínimas de segurança e higiene.
As mortes sucederam, não existem estatísticas, pois não existiam na ocasião órgãos fiscalizadores ou sequer ações preventivas na região, os trabalhadores
estavam lançados a própria sorte, as manifestações eram sempre reprimidas
de forma violenta.
A notícia da Chacina da Pacheco Fernandes, episódio que até hoje não foi esclarecido levou os holofotes de todo o Brasil para a situação do trabalhador em Brasília. Durante uma manifestação contra as péssimas condições dos alimentos que lhes eram servidos, os trabalhadores da empreiteira foram reprimidos a bala no próprio alojamento, até hoje não se sabe ao certo o número de mortos. Depois das violências cometidas e devido a grande repercussão desta tragédia, houve uma grande atuação da Associação dos Trabalhadores da Construção Civil, no sentido de denunciar as péssimas condições de trabalho, promovendo então o surgimento o primeiro sindicado de trabalhadores da construção civil da nova capital.
No decorrer da construção a cidade fora recebendo as famílias destes trabalhadores, um número muito grande de migrantes se deslocou para Brasília, muitos deles ainda em busca de trabalho, fugindo da miséria da cidade natal. O entorno de Brasília recebeu milhares de pessoas em busca de melhores condições de vida, esta intensa migração inflou as periferiascausando sérios problemas de saúde. A periferia não possuía infra-estrutura e tão pouco saneamento básico para o número de pessoas que viriam se instalar na região.
Diversos loteamentos foram ocupados sem o menor controle. A Campanha de Erradicação de Invasões – CEI que originou o nome Ceilândia, tirou, em 1971, cerca de 80 mil favelados das regiões de alto valor comercial. A expulsão das famílias que residiam nas proximidades da capital para as periferias corroborou para o agravamento dos problemas de saúde devido as péssimas condições do saneamento básico. Problemas estes que ainda podem ser vistos, mesmo quase 50 anos depois.
Hoje poucos conhecem esta história, os olhos se voltam para Brasília apenas em anos eleitorais ou ao apelo das diversas manifestações. A cidade ainda tem em seu âmago desigualdades, desemprego e problemas sérios, precisamos enxergar além da política, da opulência arquitetônica e compreender a importância destes anônimos na construção da Capital do Brasil. Assista Conterrâneos Velhos de Guerra, emocione-se, surpreenda-se, aprenda com esta obra prima de Vladimir Carvalho, não perca a capacidade de indignar-se.